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FAZ DE CONTA
(Tárcio Lemos)

No canto a antiga estante ainda existe.
Na parede o quadro empoeirado,
a retratar figura tão triste.
O livro a repetir o velho ditado.

A cadeira de balanço está vazia.
O xale bordado foi guardado.
Lembro-me das tardes tão frias,
em que eu ouvia encantado.

Vovó narrava com sabedoria,
virava as páginas vagarosa,
castelos, cavalheiros, ventania,
que saudade de sua voz bondosa.

Meus olhos presos aos dela.
Que corriam sobre a estória.
O vento zumbia na janela.
E eu guardava tudo na memória.

Meu mundo cadeira de balanço.
Estória, poesia e canto,
de recordar já não me canso,
encurto as lágrimas do meu pranto.

Sereno mundo do faz de conta.
Dorme quieto sobre a estante.
Livro, tua alma é quem desponta
e guarda a saudade daquele instante.

Quem me dera ter muitas de você
Cada uma para cada momento.
Talvez assim não pudesse esquecer.
Guardaria tudo no pensamento.

Mas foi só você quem resistiu.
A estante e a cadeira não falam.
O quadro retrata o que viu.
E as vozes da infância não calam.

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