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FISH-ONE
(Tárcio Lemos)

Pensando aqui comigo nas coisas que me sucederam durante todo o dia de hoje, suscitou-me algumas boas e cômicas idéias.

Mesmo desrespeitando as Leis da Natureza e sua escala filogênica, decidi hoje ser um peixe. Não me pergunte qual. Talvez o menor e mais humilde. Assim, despretensio-samente, iria morar num aquário.

Que aquário? Aquele, é aquele da tua sala, de 240 litros.

Coisa pouca não acha?

Talvez assim, conseguisse passar pelo rastreador de estranhos e invasores, ins-talado no alto da porta. E assim, minha alma de peixinho, no fundo de teu aquário, viveria feliz.

Com os meus olhos sempre aber-tos, porque eles não se fecham nunca, te se-guiria pela casa, veria TV com você; enfim, es-taria ali, sempre contigo.

E de vez em quando, você pesarosa da prisão aquática a que eu estava condenado, só para alegrar o visual da tua sala, me alimentaria. Claro que não me ofereceria um copo de água, mas se no teu coração a bondade morasse, e mora, você gotejaria cerveja para eu bebericar. Depois de porre, e em gratidão, beijaria o vidro frio, assim como fazem os peixes quando jogam beijos para seus donos.

Quando a noite chegasse e a lua refletisse na sala escura, prateando nossos cor-pos no borbulhar tranqüilo das águas, eu, so-zinho ficaria a cismar com saudades do mar e me enamoraria com uma estrela, de tamanho de um botão, só para espantar a solidão, en-quanto meu dono dormia em paz.

O sol chegando, traria a luz e a traria para a beira do aquário. Teu bom dia en-cheria de sons as águas e até as algas desper-tariam mais felizes. Meus olhos abertos não compreenderiam os teus, inchados. Mas o que vale é o que vai na alma de um peixe!

Alegre, muito alegre, nadaria de um lado para o outro, até que, cansado, des-maiaria no fundo. Você, preocupada, bateria cuidadosa no vidro. E eu morto de emoção, recobraria os sentidos.

Os anos passariam e a fiel amizade de um peixe por seu dono não esmoreceria.

Quando, na surpresa de uma ma-nhã ensolarada, a porta se abriu, meu coração de peixe, quase parando, foi capturado por uma redinha e colocado num recipiente para longe dali.

Pouco pude compreender. O que afinal se passa na alma de um peixe? O que vai na alma de um homem? Fui vendido por quatro mil cruzeiros, assim, sem dó, sem perda de tempo.

Desejei morrer, prender a respira-ção. Afogar-me. Atirar-me para o primeiro gato que passasse e foi isso mesmo que fiz.

Hoje, aqui no aquário celestial, sinto falta do meu dono, mesmo sabendo que, no seu aquário, vivi horas de abandono.

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