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E SE JESUS CHEGASSE AGORA?
(Affonso Romano de Sant’Anna)

Fui ver a “Paixão de Cristo” do Mel Gibson. O filme é bom, bem feito e não tem nada, rigorosamente nada de antisemitismo e antijudaísmo. É uma bela e contundente leitura visual do que está escrito nos evangelhos que retratam a vida de Jesus. É bom que seja falado em aramaico e latim, porque estamos cansados de ver Deus falando inglês.

Fala-se que há muita violência no filme. Há. Mas o ritual da paixão não foi nenhum refresco. E creio que o diretor optou por esse realce por duas razões: primeiro uma razão estético-dramática – criar ação e movimento na narrativa reproduzindo em várias cenas a terrível iconografia retratada em pinturas de grandes intérpretes do suplício do Messias. A outra razão seria teológica: carregar o fardo dos pecados de toda a humanidade é um martírio insuportável, dilacerador, interminável.

Ter visto esse filme coincidiu com o fato de eu ter visto recentemente em algumas estradas um grande cartaz indagando: “E se o Senhor Jesus chegasse agora?”. A gente passa, vê, fica intrigado ou acha graça e vai em frente. Mas, parei para pensar. Eis aí uma provocante questão. E pus-me a imaginar situações dessa segunda vinda de Cristo, que tanto inquieta certas seitas e mentes. Como as pessoas se comportariam diante dele, como ele reagiria diante de certos fatos?

A primeira coisa que Ele talvez fizesse fosse assistir a esse filme do Mel Gibson para ver o que fizeram de sua vida. Ia ficar com pena de si mesmo. Ia sofrer tudo de novo, só de ver. Ia ficar pasmo de ter resistido tantas horas de massacre. Mas o pior seria quando saísse do cinema. Ia ver tantas e tais coisas, que concluiria que seu sacrifício foi em vão.

O próximo pasmo seria constatar quantas igrejas e seitas surgiram no rastro de suas palavras. Não ia gostar de ver como maltrataram suas palavras. Constataria que pegaram seu nome e fizeram “merchandise” dele, abriram templos como quem abre “franchise” da fé.

Seria, por isto, melhor que não indagasse o que fizeram de seus ensinamentos nesses 2000 anos. Não ia acreditar na quantidade de mortes nas guerras religiosas, antes das cruzadas ou depois da Inquisição.

Se reaparecesse, por exemplo, em Israel ou em qualquer daquelas terras da antiga Palestina por onde mansamente pregou, ia ficar estarrecido. No lugar onde nasceu e onde pregou é onde há mais ódio fraticida. Seria difícil se movimentar entre tantas armas e bombas estilhaçando vidas. Estaria sendo vigiado de helicóptero e em certos territórios não poderia entrar, só por milagre.

Se resolvesse subir a montanha e fazer um novo sermão, iam logo lhe dizer:

– Olha, Mestre, não é por aí. Vamos para uma estação de televisão, lá o Senhor fala via satélite para todo mundo.

Iam, é claro, dizer que precisava de acessor de imprensa, de relações públicas, de “promoter”, que 12 apóstolos usando apenas o gogó não ia funcionar mais.

Certamente o levariam a um “talk-show”. Caso desembarcasse no Brasil iam sugerir o Jô, outros iam lembrar a Hebe que é mais popular. Mas haveria quem insistisse no Faustão. De qualquer modo haveria um “Globo Repórter” especial e um flash no “Fantástico”.

Ao ver que Ele se aproximava descendo das nuvens, uma repórter começaria:

“Estamos aqui presenciando a chegada do Senhor Jesus, nascido em Belém, que veio para ver como vão as coisas neste mundo de Deus. Ele está se aproximando de nossas câmaras, então vamos aproveitar e lhe perguntar:

– Cristo, faz favor, diga aos nossos telespectadores quais são as suas primeiras impressões?”

É quase certo que uma marca de cerveja tentasse contratá-lo para que demonstrasse como se transforma água em cerveja e cerveja em água. E já que Ele é uma celebridade, ia ser um tal de pedir autógrafo e tirar retratos do seu lado para mandar aos parentes do interior, que não acabaria nunca. Se facilitasse ia acabar na Ilha de Caras.

A CIA e o FBI iam botar espiões atrás dele dia e noite, iam grampear suas conversas, e tanto Bush quanto Kerry iam querer aparecer ao seu lado na convenção de seus partidos.

No Brasil iam pedir que participasse do “Fome Zero”, que tornasse a multiplicar pães e peixes para as multidões.

Depois de ir daqui para ali, indagar, opinar e participar às vezes mansamente, outras vezes mais iradamente como quem expulsa os vendilhões do templo, começariam as intrigas, as fofocas e, não tenham dúvida, seria traído.

Traído por aqueles que dizem segui-lo e, no entanto, matam e trucidam populações inocentes, iria, enfim, para julgamento sumário. E depois de apanhar como se apanha desses pitboys nas portas das boates, seria executado nos subúrbios de nossa indiferença e os jornais ainda seriam capazes de dizer:

“Foi encontrado morto ontem numa vala o corpo de um indivíduo que insistia ser Jesus Cristo. Seus parentes e vizinhos disseram que sempre temeram que fosse esse seu fim, pois tinha umas idéias muito estranhas e vivia falando coisas que ninguém nunca levou a sério”.

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