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– Por que o meu fardo é tão pesado? Eu bati com força a porta do quarto e me apoiei nela.

– Não há mais nada nessa vida?, eu me perguntei, me joguei na minha cama e me afundei nela, apertando o travesseiro nos meus ouvidos para tentar silenciar o barulho da minha existência.

– Oh Deus! – eu gritei – deixe-me dormir, deixe-me dormir para sempre e nunca mais acordar!

Com um profundo pesar, eu tentei me levar para um estado de inconsciência, para aceitar a escuridão que tinha se apoderado de mim. Uma luz me envolveu assim que eu recuperei a consciência. Eu procurei a fonte dessa luz e vi uma figura de um homem em pé diante de uma cruz.

– Minha filha, por que você não quis vir a mim quando eu lhe chamei? – A pessoa me perguntou.

– Senhor, eu sinto muito, mas…. Eu não posso mais. Você mesmo pode ver o quão difícil está sendo pra mim. Olhe só para o fardo que eu tenho em minhas costas. Eu simplesmente não posso mais carregá-lo.

– Mas eu não lhe disse para colocar todos os seus fardos em mim, por que eu me importo com você?

O meu jugo é suave e meu fardo é leve.

– Eu sabia que você ia dizer isso. Mas por que o meu tem que ser tão pesado?

– Minha filha, todas as pessoas tem um fardo. Talvez você gostasse de tentar um diferente?

– E, eu posso?

Ele apontou vários fardos que estavam aos seus pés.

– Você pode escolher qualquer um desses.

Todos pareciam ser do mesmo tamanho. Mas cada um tinha um nome.

– Esse é o de Joana – eu disse.

Joana era casada com um rico empresário. Ela vivia em uma mansão e vestia suas 3 filhas nas lojas mais caras, com os mais caros desenhistas de moda. Algumas vezes ela me deu carona até a igreja quando o meu carro estava quebrado.

– Vou experimentar esse! “Quão difícil poderia ser o fardo dela pra mim?”, eu pensei.

O Senhor retirou o meu fardo e colocou o de Joana nos meus ombros. Eu caí de joelhos devido ao peso.

– Tire isso de mim! O que o faz ser tão pesado? – Olhe dentro do fardo.

Eu desamarrei as tiras e abri o topo. Dentro havia uma foto da sogra de Joana, e quando eu a peguei ela começou a falar:

– Joana, você nunca vai ser boa o bastante para o meu filho – ela começou – Ele nunca devia ter casado com você. Você é uma mãe terrível para as minhas netas…

Eu rapidamente joguei a foto dentro do saco e tirei outra. Era Donna, a filha mais nova de Joana. A sua cabeça estava toda enfaixada devido a uma cirurgia que ela havia sofrido e não tinha resolvido o problema da epilepsia. A terceira foto era do irmão de Joana. Viciado em drogas, ele havia sido condenado por ter matado um policial.

– Eu vejo porque o fardo dela é tão pesado, Senhor. Mas ela está sempre sorrindo e ajudando os outros. Eu não imaginei…

– Você gostaria de tentar outro? – Ele me perguntou mansamente.

Eu testei vários. O de Paula era muito pesado. Ela estava criando 4 crianças pequenas sem um tostão… O de Debora também: uma infância de abusos sexuais e um casamento de abusos emocionais. Quando eu vi o de Rute eu nem tentei. Eu sabia que eu encontraria artrite, velhice, a necessidade de um emprego e um marido amado em um hospital.

– Todos são muito pesados, Senhor – eu disse – Me devolva o meu. Assim que eu levantei a minha carga tão familiar, ela me pareceu muito mais leve do que todos os outros.

– Vamos olhar o que tem dentro – Ele disse.

Eu me virei fechando o fardo. – Não é uma boa idéia – eu disse.

– Por que?

– Tem um monte de besteira aqui.

– Deixe me ver…

O gentil trovejar de sua voz me compeliu a abrir o meu fardo. Ele tirou um tijolo de dentro.

– Fale-me sobre este.

– Senhor, Você sabe. É o dinheiro. Eu sei que não sofremos como as pessoas em certos países, ou mesmo aqui na América, os sem-teto. Mas nós não temos seguro, e quando as crianças ficam doentes, nós nem sempre podemos levá-las ao médico. Elas não foram nem ao dentista. E eu estou cansada de vesti-las com roupas ajustadas.

– Minha filha, eu vou suprir todas as suas necessidades… e, quanto aos seus filhos, eu os dei corpos sadios. Eu vou ensiná-los que roupas caras não é o que faz uma pessoa realmente de valor aos meus olhos.

Então ele tirou a figura de um menino. – E isso? – Ele perguntou.

– André… – eu abaixei a cabeça com vergonha de chamar o meu próprio filho de “fardo”. – Mas, Senhor, ele é hiperativo. Ele não fica quieto como os outros dois. Ele me cansa tanto. Ele está sempre se machucando, e algumas pessoas pensam que sou eu quem bate nele. Eu grito com ele a toda hora. Algum dia eu realmente vou machucá-lo.

– Minha filha – Ele disse – se você acredita em mim, eu vou renovar as suas forças. Se você me permitir eu vou cobri-la com meu Espírito e vou dá-la paciência.

Ele então retirou algumas pedrinhas do meu fardo.

– Sim, Senhor – eu disse – essas são pequenas, mas são importantes. Eu detesto o meu cabelo. Ele é fino e não consigo fazer com que ele fique legal. Eu não tenho dinheiro pra ir ao cabeleireiro. Eu estou acima do peso e não consigo enfrentar uma dieta. Eu detesto todas as minhas roupas. Eu me detesto como eu sou.

– Minha filha, as pessoas olham pra você e vêem o seu exterior. Eu vejo o seu coração. Pelo meu Espírito você pode ganhar autocontrole para perder peso. Mas a sua beleza não deve vir de fora. Ao contrário, ela deve vir de dentro de você, a beleza que desbota de um gentil e calmo espírito, que tem um valor enorme aos meus olhos.

O meu fardo agora parecia mais leve do que antes. – Eu acho que eu posso suportá-lo agora.

– Tem mais – Ele disse – Passe-me aquele último tijolo.

– Você não precisa tirar esse, eu posso suportar.

– Minha amada filha, me dê o tijolo.

Novamente sua voz me levou a fazê-lo. Ele estendeu a mão e pela primeira vez eu vi sua horrível chaga.

– Senhor, mas esse tijolo é tão nojento, tão repugnante, tão… Senhor! O que aconteceu com suas mãos? Elas estão feridas!

Não mais olhando para o meu fardo, eu olhei pela primeira vez para a sua face. Em sua testa haviam cicatrizes, como se alguém houvesse enfiado espinhos em sua carne.

– Senhor – eu sussurrei, o que aconteceu a você?

Os seus olhos cheios de amor alcançaram minha alma.

– Minha filha, você sabe. Me passe o tijolo, ele me pertence. Eu o comprei.

– Como?

– Com o meu Sangue.

– Mas por que Senhor? – Porque eu a amo com um amor sem fim. Me passe o tijolo.

Eu coloquei o tijolo nojento nas mãos feridas dele. Ele contém toda a sujeira e mal da minha vida: meu orgulho, meu egoísmo e a depressão que tanto me tortura. Ele se voltou para a cruz e atirou o tijolo na poça de sangue que existia aos pés da cruz. Isso mal fez uma ondinha.

– Agora, minha filha, você deve voltar. Eu estarei sempre com você. Quando você tiver algum problema, me chame e eu a ajudarei, mostrando-lhe caminhos que você nunca imaginou.

Eu me adiantei para pegar o meu fardo.

– Você pode deixá-lo aqui, se quiser. Você vê todos estes fardos? Estes são aqueles que algumas pessoas deixaram aos meus pés. Joana, Paula, Debora, Rute… Se você deixar o seu fardo aqui eu o carregarei pra você. Lembre-se: meu jugo é suave e meu fardo é leve.

Assim que eu deixei o meu fardo com Ele, a luz começou a diminuir. Mas eu ainda pude ouvi-lo dizer:

– Eu nunca vou deixá-la, nunca a esquecerei nem a abandonarei.

Uma paz inexplicável encheu minha alma.

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